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quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Onde é que fica o Quirguistão?

Enquanto esperamos pelas nossas filhas que estão na aula de natação, ela vai-me desfiando a sua história. Um olho em mim e o outro no mais novo, pelo que a conversa foi interrompida várias vezes enquanto a Mukhae corria atrás dele.

Portugal era talvez o último destino em que a Mukhae se imaginava a viver. Com 27 anos de idade, tinha-se formado em Direito e trabalhara como advogada e como tradutora no Quirguistão, seu país natal.

Mas depois dos conflitos armados e do Golpe de Estado de 2010, muita coisa mudou e a descriminação de que a sua etnia, os Uzbeques, era alvo fez colocar muitos cenários em cima da mesa.

Em dezembro desse ano, um compatriota que ela não conhecia regressou ao seu país, depois de alguns anos a trabalhar no setor agrícola em Portugal. A mãe dele convenceu-o que estava na hora de se casar e contactaram a família da Mukhae. O casamento aconteceu alguns dias depois e no início de 2011 ele voltou para Portugal, desta vez empregando-se como motorista. Em abril, a Mukhae, já grávida, juntou-se a ele e iniciou o processo de legalização em terras lusas. Viviam em Gaia numa casa muito rude e a Segurança Social havia iniciado um processo para atribuição de habitação social.

Entretanto, o marido foi para a Alemanha dedicar-se ao negócio de exportação de carros usados para o Quirguistão. Ela ficou sozinha, grávida e mal-falante do Português. Em outubro de 2011, nasceu a bebé e, por intermédio da assistência social do hospital, ela foi enviada para o Centro Comunitário S. Cirilo. Esta estrutura, no Porto, dedica-se, entre outras atividades assistenciais, ao acolhimento temporário de imigrantes e pessoas sem-abrigo.

Os maus-tratos e os conflitos com o marido eram já uma evidência no jovem casamento, mas bastou o marido voltar do estrangeiro para que ela deixasse o Centro e fosse com ele. Com a bebé ainda muito pequena, passaram a viver num camião, de forma itinerante. Estiveram por França, Alemanha e um período mais largo na Lituânia. Além de todos os constrangimentos de viver com uma criança pequena num meio de transporte, a violência continuava. Ela, que estava novamente grávida, decidiu voltar para Portugal, onde nasceu o segundo filho, um menino.

Mais uma vez, foi encaminhada para o S. Cirilo. Mais uma vez, o marido apareceu a prometer mundos e fundos e a tirou de lá, alugando um quarto para os quatro. A violência doméstica levou os vizinhos a fazerem queixa dele, tendo sido levado a julgamento.

O pesadelo, porém, só terminou quando foram ao Quirguistão tratar do divórcio. Ele não queria aceitar a separação, mas como a Mukhae tinha trabalhado no tribunal conseguiu mexer os cordelinhos e desvincular-se oficialmente daquele casamento.

Entretanto, a mãe e a irmã dela estavam numa situação muito delicada, vítimas de descriminação étnica. A irmã, que é enfermeira, não conseguia trabalhar no seu país e fora apanhada por uma rede que lhe prometera trabalho na Rússia. Porém, quando chegou àquele país, retiraram-lhe o passaporte e enviaram-na com outras pessoas para a Turquia, junto à fronteira com a Síria. O objetivo era entrar na guerra síria, tratando dos feridos do ISIS. A propaganda religiosa conseguira recrutar muita gente voluntariamente, mas ela queria escapar a todo o custo e não conseguia. Em pânico, a Mukhae pediu ajuda a um tio advogado que vivia na Rússia e ele conseguiu ir à Turquia resgatar a sobrinha, que se encontrava a viver num restaurante quando foi salva.

Estava já no Quirguistão quando a Mukhae foi tratar do divórcio. Se ficasse no país, novamente cairia noutra malha. Decidiram pedir asilo em Portugal. Graças a um golpe de sorte e a um suborno que lhes levou tudo quanto possuíam, conseguiram sair do país. É que as mulheres não estão autorizadas a viajar sozinhas.

A irmã e a mãe viajaram primeiro: de avião até Madrid, depois da escala em Istambul, e de Espanha para Portugal viajaram com o apoio de uma amiga da Mukhae. Ela decidiu ir de camião com as crianças até Istambul. Dali apanhou avião para Madrid. O dinheiro estava contado. As malas eram muitas porque aquela era uma viagem sem previsão de regresso. Em Madrid, sozinha, com duas crianças pequenas e um monte de malas, viu-se obrigada a apanhar um táxi até à estação de comboios. Havia comprado os bilhetes online. Mas, com as necessidades fisiológicas das crianças e toda a logística associada à viagem, acabou por perder o comboio… e não tinha dinheiro que chegasse para outro bilhete. Não conseguia aceder à conta bancária portuguesa onde tinha o dinheiro que ia recebendo do abono familiar… o dinheiro não chegava para ficar num hotel…

Entretanto, acabou a aula de natação e não consegui ouvir o fim da história. Não é difícil imaginar.
Sei que isso se passou há um ano e ela conseguiu chegar em segurança com as crianças e as malas. Ficaram uma vez mais a viver no S. Cirilo, desta vez com a mãe e a irmã, que estão a tentar ficar no nosso país, tendo pedido asilo político.

A Mukhae está em situação legal, assim como as crianças, e no verão passado conseguiu autonomizar-se, passando a residir com os dois filhos num apartamento. As crianças têm escola e têm apoio para as necessidades básicas. 

Já consegui localizar no mapa o Quirguistão, mas estou ainda longe de conhecer a realidade das pessoas que têm de fugir à repressão e a sistemas injustos.


sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Hijab: Usar ou não usar?

Sentada numa esplanada junto ao mar, assistia à discussão em silêncio. Uns defendiam que, mesmo estando em Timor  e sabendo que os timorenses não se despem em público, tinham todo o direito de ir à praia em fato de banho. Outros argumentavam que, devido ao respeito pela cultura local, tomavam banho nas praias com roupa por cima dos trajes de banho. Eu conseguia compreender os dois lados, mas costumava ir a banhos, nas magníficas praias de areia branca e água quente e transparente de Timor, de fato de banho e calções. Fazia-o sobretudo para não ferir suscetibilidades e para não atrair atenções, preferindo passar despercebida.




















Foi pelo mesmo motivo que questionei há pouco tempo uma mulher muçulmana que me disse que queria procurar trabalho em Portugal se não ponderava deixar de usar lenço. Não estava a por em causa a sua identidade e cultura, mas antes a tentar protegê-la dos olhares inquisidores de pessoas que não estão habituadas a ver mulheres de hijab, numa fase da nossa história em que os muçulmanos são associados a terrorismo, guerra santa, extremismo e fundamentalismo.

Mais uma vez consigo compreender os dois lados: os que preferem manter os seus hábitos mesmo num país que não os compreende e os que preferem ser romanos em Roma, por vontade de se integrarem culturalmente, por respeito ou por acomodação.

Ainda quando estava em Timor, fazia uma reflexão acerca do que é cultural e do que é supracultural e envolve respeito pela dignidade humana, o que se sintetiza nos Direitos Humanos. Conhecer e respeitar uma forma de estar e de ver o mundo enriqueceu-me muito, fez-me sair da minha bolha ideológica e rasgar pontos de comunicação com outras formas de vida. Aprendi, por exemplo, a dar outro valor ao tempo num país onde as pessoas marcavam uma hora para reunir e, sem qualquer falta de consideração pela minha pessoa, eram capazes de se atrasar por terem encontrado um amigo que não viam há muito tempo ou por lhes ter sido solicitada ajuda de última hora. Isso fez-me perceber o quanto na nossa cultura somos escravos do tempo e vivemos agrilhoados a listas de compromissos e ocupações que nos fazem passar a correr e sem tempo pelas oportunidades de encontro connosco e com os outros. Mas havia também aspetos da cultura timorense que eu não podia aceitar, como por exemplo a forma como um órfão era por vezes tratado pelos familiares que o adotavam.

Não consigo conceber que haja culturas melhores ou piores, como alguns colegas da esplanada defendiam. Espero que não se ocidentalize nenhum povo em nome do desenvolvimento. Porque é na subtileza das várias formas de estar que podemos crescer como raça humana. Mas também não me parece bem que se use a cultura para justificar comportamentos que desrespeitam os direitos humanos, como a mutilação genital, o trabalho infantil, a subjugação da mulher e o abandono e mau trato de idosos. Não falo de Timor, da Nigéria, da Índia, do Iraque ou de Portugal. Falo de toda uma humanidade cheia de falhas na garantia da dignidade dos seus cidadãos e de uma bela manta de retalhos culturais, que não pode servir para fazer sombra aos direitos fundamentais do homem.

Se as mulheres muçulmanas devem ou não usar lenço em países europeus? Não sei, acho que é uma escolha delas. Contudo, se o hijab encobre um desrespeito pela autodeterminação da mulher, se lhe veda oportunidades, se limita a sua dignidade e igualdade, então essa questão também me diz respeito e não a poderei tolerar.