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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Uma árvore florida

O Baba gosta sempre de me mostrar as suas criações, desde as gastronómicas (que bem que me soube o pequeno-almoço que me ofereceu para eu poder apreciar algumas iguarias da cozinha síria!), ao artesanato, passando pela jardinagem e a agricultura.
Está em Portugal há quase nove meses e com ele vieram a esposa, dois filhos, a nora e três netos e o objetivo das minhas visitas é ajudar na aprendizagem do Português.
Ultimamente, tenho podido apreciar desenhos, ilustrações, pinturas, retratos... artes plásticas que saem das suas mãos com grande naturalidade. Isto apesar das dores nas mãos que o costumam massacrar.
Na sexta-feira passada, ofereceu-me esta pintura de uma árvore florida. Gostei logo da simplicidade das formas e do calor das cores nascidos num papel velho e inapropriado para o trabalho.
Fiquei a pensar que redutos tem a alma humana para conseguir aprisionar os medos, os traumas, as dores, e deixar que à sua volta os campos floresçam de esperança e vida.
Será a arte o grito contra a barbárie desumana?
Ou o apelo ao entendimento através de verdades inquestionáveis como a cadência das estações?
Talvez as flores que perfumam este desenho tenham sido pinceladas com sangue humano, mas não deixam de me interpelar e transmitir uma mensagem.
Só o Baba o poderá dizer. Antes de falarmos uma língua comum, vamo-nos expressando através de linguagens universais como as histórias, a pintura, a postura corporal, os gestos, a música e a comunicação do coração.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

«Trabalho das 8h às 16h. Tenho saudades de ser feliz.»



Mais de 187 mil crianças em idade escolar sírias refugiadas no Líbano não vão à escola.
Este testemunho faz parte de um novo documentário interativo da UNICEF chamado #imagineaschool. Há outros também impressionantes...

Jomaa, 14 anos, fugiu da Síria com os sete irmãos há quatro anos. Ganha dois dólares americanos por 12 horas de trabalho. «Esqueci como escrever e ler.»

Mohamad tem 15 anos e trabalha para sustentar a família: «Canso-me muito. Trabalho das 8h às 16h. Tenho saudades de ser feliz.»


Ao ouvi-los não consigo deixar de pensar na sorte que temos, mas ao mesmo tempo como a vida é tão dura para tanta gente... Daí ao passo «o que fazer?» vai um piscar de olhos...


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Fogo no Mar

- Por favor, ajudem-nos, estamos a afundar!
- Quantas pessoas?
- 250! Há muitas mulheres e crianças. Ajudem-nos!
- Qual é a vossa posição?
- Ajudem-nos! Socorro!
- Por favor, mantenha a calma e diga-me qual é a vossa posição.
Perde-se a ligação, em vão um helicóptero tenta perscrutar na noite sinais da embarcação em apuros, no dia seguinte a rádio local de Lampedusa informa que pelo menos 250 pessoas perderam a vida na tentativa de alcançarem a ilha.
É desta forma desconcertante que começa o filme "Fogo no Mar", da autoria de Gianfranco Rosi, realizador que viveu na ilha durante mais de um ano captando as imagens que estiveram na base deste documentário. No final, não conseguiu abandonar Lampedusa e, contrariamente aos seus planos iniciais, não conseguiu fazer a edição do filme, por não estar preparado para voltar a reviver as emoções por trás das imagens.
Com arte e sentido de humor, o filme leva-nos a conhecer as rotinas de quem vive na ilha, tendo como personagem principal um rapazinho de 12 anos chamado Samuele; mostra-nos os olhares de fogo de quem é resgatado do naufrágio; apresenta-nos quem presta assistência a estas pessoas.

Emerge à tona das águas límpidas de Lampedusa uma certeza: quem enfrenta a morte daquela maneira só pode estar a fugir a algo ainda pior. Guerras, tráfico, fome, sede, exploração, miséria.
Assistimos à exploração submarina de um mergulhador local, talvez para recolher objetos dos náufragos, quem sabe para construir um museu ou para fazer um cemitério de sonhos. Aqueles mares, os nossos mares, estão salgados pelo desespero e obscurecidos pela falta de ação concertada.
Assistindo aos vários procedimentos legais que os migrantes são sujeitos, ouvimos os comentários dos guardas que frisam o cheiro a gasóleo dos náufragos. No final do filme percebemos porquê: os barcos em que navegam têm de ser reabastecidos várias vezes durante o trajeto e nesse processo muito combustível cai ao chão e junta-se à água que já cobre o piso. As pessoas ficam molhadas com essa mistura e muitas delas sofrem queimaduras graves. Mais chocante do que isso foi vermos o resgate de um barco em cujo porão cerca de 50 pessoas morreram ou estavam perto disso devido ao calor e consequente falta de oxigénio. Cada uma delas pagara 800 dólares americanos por aquela passagem...
É um filme com pormenores de ternura, retratando o dia a dia de Samuele, com as diabruras próprias da idade. Mas é sobretudo um abanão. Um confronto com um mundo semeado de desigualdades que nem barreiras naturais como o mar conseguem estancar.
Só no ano de 2013, 14.753 imigrantes -três vezes mais do que a população da ilha - desembarcaram em Lampedusa, causando um impacto tremendo na dinâmica social local. Depois do terrível naufrágio de 3 de outubro de 2013, onde 366 pessoas perderam a vida, desencadeou-se a operação Mare Nostrum, que tem permitido salvar a vida a muitos migrantes e refugiados: só num ano foram resgatadas do mar 60.000 pessoas.
Ver este filme é permitir que a realidade não nos seja indiferente, é transformar os números em pessoas, o choque em apelo à ação!
Imagem: Amnistia Internacional

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Hijab: Usar ou não usar?

Sentada numa esplanada junto ao mar, assistia à discussão em silêncio. Uns defendiam que, mesmo estando em Timor  e sabendo que os timorenses não se despem em público, tinham todo o direito de ir à praia em fato de banho. Outros argumentavam que, devido ao respeito pela cultura local, tomavam banho nas praias com roupa por cima dos trajes de banho. Eu conseguia compreender os dois lados, mas costumava ir a banhos, nas magníficas praias de areia branca e água quente e transparente de Timor, de fato de banho e calções. Fazia-o sobretudo para não ferir suscetibilidades e para não atrair atenções, preferindo passar despercebida.




















Foi pelo mesmo motivo que questionei há pouco tempo uma mulher muçulmana que me disse que queria procurar trabalho em Portugal se não ponderava deixar de usar lenço. Não estava a por em causa a sua identidade e cultura, mas antes a tentar protegê-la dos olhares inquisidores de pessoas que não estão habituadas a ver mulheres de hijab, numa fase da nossa história em que os muçulmanos são associados a terrorismo, guerra santa, extremismo e fundamentalismo.

Mais uma vez consigo compreender os dois lados: os que preferem manter os seus hábitos mesmo num país que não os compreende e os que preferem ser romanos em Roma, por vontade de se integrarem culturalmente, por respeito ou por acomodação.

Ainda quando estava em Timor, fazia uma reflexão acerca do que é cultural e do que é supracultural e envolve respeito pela dignidade humana, o que se sintetiza nos Direitos Humanos. Conhecer e respeitar uma forma de estar e de ver o mundo enriqueceu-me muito, fez-me sair da minha bolha ideológica e rasgar pontos de comunicação com outras formas de vida. Aprendi, por exemplo, a dar outro valor ao tempo num país onde as pessoas marcavam uma hora para reunir e, sem qualquer falta de consideração pela minha pessoa, eram capazes de se atrasar por terem encontrado um amigo que não viam há muito tempo ou por lhes ter sido solicitada ajuda de última hora. Isso fez-me perceber o quanto na nossa cultura somos escravos do tempo e vivemos agrilhoados a listas de compromissos e ocupações que nos fazem passar a correr e sem tempo pelas oportunidades de encontro connosco e com os outros. Mas havia também aspetos da cultura timorense que eu não podia aceitar, como por exemplo a forma como um órfão era por vezes tratado pelos familiares que o adotavam.

Não consigo conceber que haja culturas melhores ou piores, como alguns colegas da esplanada defendiam. Espero que não se ocidentalize nenhum povo em nome do desenvolvimento. Porque é na subtileza das várias formas de estar que podemos crescer como raça humana. Mas também não me parece bem que se use a cultura para justificar comportamentos que desrespeitam os direitos humanos, como a mutilação genital, o trabalho infantil, a subjugação da mulher e o abandono e mau trato de idosos. Não falo de Timor, da Nigéria, da Índia, do Iraque ou de Portugal. Falo de toda uma humanidade cheia de falhas na garantia da dignidade dos seus cidadãos e de uma bela manta de retalhos culturais, que não pode servir para fazer sombra aos direitos fundamentais do homem.

Se as mulheres muçulmanas devem ou não usar lenço em países europeus? Não sei, acho que é uma escolha delas. Contudo, se o hijab encobre um desrespeito pela autodeterminação da mulher, se lhe veda oportunidades, se limita a sua dignidade e igualdade, então essa questão também me diz respeito e não a poderei tolerar.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

“QUANTOS QUERES” – Desafios, até quantos queres?

Sentei-me para começar a colocar ideias no papel. Tinha já um tema importante para vos falar: o projeto At The Frontiers. Porém, houve mais umas quantas questões que fui tomando nota enquanto pensava em como posso por a minha presença, forças e competências ao serviço das pessoas que vou encontrar na Sicília. Nisto lembrei-me de um origami bastante popular em Portugal, o “Quantos Queres". Neste artigo vão perceber porquê.


Antes de Ragusa

Quando era criança havia jogos, brincadeiras, lengalengas e canções que tinham bastante sucesso na escola e outros espaços de recreio. Lembrei-me do “Quantos Queres”, e de outros jogos que os miúdos ainda hoje gostam, fazem, repetem ou readaptam, e que coexistem a par dos jogos digitais. No fim-de-semana que passou, peguei em folhas de papel colorido e comecei a fazer “Quantos Queres” com o meu sobrinho Francisco (Ki) de 3 anos. Ao mesmo tempo, pensava no desafio de ficar em Ragusa, província da Sicília, durante 23 dias numa missão de voluntariado internacional. Em breve vou ser parte de uma equipa de profissionais humanitários no At The Frontiers - https://www.facebook.com/ATTHEFRONTIERS/?fref=ts - com elementos de diferentes países europeus, que trabalham em cooperação com os profissionais dos centros de acolhimento na assistência a pessoas e famílias requerentes de asilo.

O At The Frontiers with Asylum Seekers surgiu, em 2015, da vontade e capacidade de ação de um grupo de cidadãos de uma associação cristã na Europa, a CLC (Christian Life Community in Europe). Qualquer pessoa pode integrar este projeto, com ou sem religião, desde que tenha bem desenvolvidas as competências pedidas a um profissional humanitário e participe nas atividades em comunidade. Os voluntários que têm integrado este projeto vêm de países como a Alemanha, Grécia, França, Itália, Portugal, Bélgica, Áustria, Espanha, Luxemburgo, Egipto e Holanda. Para os campos de trabalho desta temporada, de junho a outubro, as equipas já estão formadas, mas, para quem estiver interessado em candidatar-se, o projeto continua no inverno.

Entre pensamentos e reflexões, alguns “Quantos Queres” já estavam construídos. A simplicidade dos origamis remeteu-me para algumas das atividades que os voluntários estão a desenvolver neste projeto, como jardinagem e culinária, workshops sobre culturas e geografia, jogos de futebol, sessões de cinema com tertúlia, aulas de italiano ou inglês e tempos livres à conversa, a ouvir e a passear. Uma folha de papel, lápis e as nossas mãos. Desenhei uns olhos em duas das múltiplas faces do “Quantos Queres” e ofereci-o ao Ki. Como ele ficou encantado com o boneco muito simples que acabara de nascer daquele origami.




“Quem vai ao mar, avia-se em terra”

É um ditado bem português e que faz tanto sentido para o pescador como para o profissional humanitário. Não se parte para um projeto de ação humanitária de qualquer maneira. É uma enorme responsabilidade. Há um exercício importante a fazer antes de qualquer desafio, mas sobretudo neste contexto de trabalho com grupos de pessoas que estão altamente vulneráveis: tomarmos consciência das nossas motivações para fazer parte de um projeto humanitário.

É para eu dar o meu contributo no acolhimento, na capacitação e na resolução de problemas daqueles que estão vulneráveis e em situações de enorme fragilidade? É para trabalhar num registo construtivo, pacífico e em cooperação com os vários agentes no terreno? Tenho o perfil pretendido e estou em condições físicas e psicológicas para desempenhar aquele papel?

As respostas que encontramos a estas perguntas e outras, vão guiar-nos na decisão a tomar e são passos que nos predispõem para estarmos com mais foco quando estivermos no terreno. A preparação também passa por pesquisar e procurar informação relevante, contactar e falar com alguns dos elementos que já foram e voltaram, começar a reunir recursos, conteúdos e/ou materiais, e identificar competências transversais ou técnicas que possam potenciar o nosso trabalho em missão.

Olhei para as oito faces no interior do “Quantos Queres” e pintei uma bola, cada uma de uma cor diferente, em cada face. O Ki ficou curioso. Oito faces, oito bolas coloridas.




A diversidade cultural

As pessoas que chegam à Sicília são em grande parte sobreviventes de travessias por vezes inenarráveis pelo sofrimento, as dificuldades e a morte que encerram. Vêm sobretudo de países das costas de África, em guerra, com instabilidade política ou miséria profunda para pedirem asilo na Comunidade Europeia. Chegam de muitos países diferentes. Da Nigéria, Mali, Gâmbia, Senegal, Costa do Marfim, Guiné-Conacri, Eritreia, Somália, Etiópia, entre outros, e também de países como o Bangladesh, Egipto e Síria. Depois dos primeiros cuidados de saúde, alguns de emergência, da identificação e triagem, as pessoas são encaminhadas para os centros de acolhimento na ilha. É aqui que o projeto At The frontiers começa a atuar, em estreita cooperação com os profissionais que trabalham a tempo inteiro nestas casas de acolhimento, prestando assistência às famílias, mulheres e crianças, homens migrantes e refugiados que pedem asilo. O processo de requerimento de asilo é um processo demorado, que pode levar até um ano.

No melting pot de culturas e idiomas tão distintos, o inglês e o francês são os idiomas mais escolhidos para comunicar, mas nem sempre são suficientes. A comunicação não verbal e a criatividade aqui são fundamentais para que haja uma plataforma de entendimento. Pequenos exercícios, dinâmicas e ferramentas, que aparentam ser somente lúdicas, como os “Quantos Queres” e outros origamis, podem facilitar a comunicação e a relação com o outro, para além de serem uma atividade relaxante. Perguntei ao Ki que cor é que ele escolhia. Vermelho. Perguntei-lhe também qual o animal preferido dele. O piriquito Chico. Levantei essa face dobrada do origami e desenhei um pequeno pássaro azul, como é o piriquito Chico que o Ki conhece. “Uau”, disse ele.


Tudo o que levo na mochila para a Sicília

Estou curiosa não só em relação ao projeto, à equipa e às pessoas com quem vou trabalhar, mas também em relação à terra, ao povo e à cultura siciliana. Parto dia 26 de agosto e comigo levo uma mochila às costas por ser mais prático e rápido nos aeroportos e para quando tenho de caminhar.

A minha mochila não pode pesar mais do que 8kg, por isso vou levar o mínimo de coisas que conseguir para 25 dias. É sempre uma aventura fazer a mochila! Quero sempre levar mais do que preciso. O rol será mais ou menos este: roupa de verão e calçado prático para cerca de 6 dias, fácil de lavar e secar; 1 pano/saída de praia multifunções; 1 chapéu; 1 corta-vento/impermeável; 2 sweatshirts; biquíni/fato-de-banho; protetor solar; telemóvel e carregador; disco externo/pc; kit higiene e 1ºs socorros com recipientes até 100 ml; 1 livro; 1 caderno para apontamentos; 2 esferográficas; 1 mapa da Europa e 1 mapa-mundo; 2 dicionários de bolso: inglês e francês; 1 lista de palavras básicas e essenciais em árabe; 1 apito com bússola; óculos de sol; 1 mochila ultra-leve; bolsa com documentos. Não caberá muito mais. No final peso-me com a mochila e sem ela, e a diferença não poderá exceder os 8 kg.


Fazer de propósito

Quantos desafios queres? O que podes fazer mais? O que fazes vai beneficiar alguém? São perguntas que vou fazendo a mim própria e que me ajudam a escolher projetos que realmente importam. Há aquela história muito curta de um homem que pedia incessantemente a Deus para lhe sair o euromilhões. Era a mesma conversa todas as noites, ao deitar. Um dia Deus perdeu a paciência e resolveu intervir, dizendo-lhe: “Ao menos joga criatura!”

Sempre que queremos aprender e evoluir, é preciso sairmos da nossa zona de conforto e ultrapassar limites, limites esses que muitas das vezes são apenas meras preocupações e medos que vamos alimentando. Se por um lado há desafios que a vida nos lança nos braços, por outro há desafios que podemos ser nós a escolher, a agarrar, e a fazer de propósito para que eles aconteçam. Fazer de propósito, escolher, colocar-me em ação, é de longe muito mais interessante.

Outra ideia que ainda apontei, enquanto fazia mais alguns “Quantos Queres”, é a de que não podemos mudar o mundo, mas podemos contribuir para mudar o mundo de alguém ou até de muitos. Contudo, algumas perspetivas que temos, amarram-nos e paralisam-nos. Quais são aquelas que me impedem de agir? A minha forma de pensar permite-me ver o outro enquanto pessoa? Consigo sair da minha zona de conforto e envolver-me na vida da minha comunidade, trabalhar lado a lado com outros que têm ideias diferentes, e mesmo assim encontrarmos respostas para problemas e juntos passarmos à ação? Parar e calibrar as lentes, desconstruir argumentos, faz-nos bem.


Daqui podemos ajudar lá

Quando na semana passada partilhei na minha página do facebook a notícia de que ia fazer parte deste projeto com migrantes e refugiados, pedi aos meus amigos que me contactassem caso soubessem de alguém ou alguma organização/empresa que possa apoiar financeiramente o At The Frontiers. Alguns dos meus amigos mais próximos perguntaram-me se haveria também alguma forma de contribuir individualmente e em quantias mais pequenas. Contactei a equipa de coordenação do projeto e eles responderam que sim, agradeceram muito a iniciativa, e disseram que a ajuda que damos daqui, de onde nos encontramos, é bastante importante, uma vez que permite que se faça muito mais. Ficam aqui os dados e o IBAN para quem puder ajudar:
IBAN: IT23C0503403234000000125472
Banca Popolare di Novara – AG. 36, (codice swif/bic: bappit21n92)
Atenção, quando fizerem a transferência é importante referir para que é o donativo. Reason: Migrants Project.

Os donativos vão reverter já para este projeto no período do inverno, para realizar atividades como jogos, música, artes plásticas e trabalhos manuais, culinária e alimentação, a pintura dos centros de acolhimento, e vai permitir que voluntários com poucas condições económicas possam fazer parte do projeto também. Para além deste passo, falei ontem com duas voluntárias que estiveram lá o ano passado, a Jacinta e a Rita, e quando conversávamos uma delas disse-me que faziam sessões de cinema seguidas de uma partilha de ideias. Ficou a sugestão de eu levar filmes em formato digital, do género do Patch Adams, que eles viram e adoraram, comédias e outros filmes que bem dispõem. Se alguém tiver uma coletânea digital que me possa passar, agradeço. Agradeço também outras ideias que não ocupem espaço.





“diário de ragusa”

Para este mês tenho vários desafios, um deles é começar a escrever um diário sobre este projeto em Ragusa com pequenas histórias. Ainda não sei se terei facilidade de acesso à net e tempo suficiente para me dedicar diariamente à escrita, mas mesmo assim avanço e, no que me for possível, vou dar notícias, contar pequenas histórias, de forma simples e breve. O “diário de ragusa” é o nome do blogue que em breve partilho convosco. Quanto ao “Quantos Queres”, sei que vou pegar em folhas de papel e fazer um ou outro quando estiver por lá. Logo vos conto.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Crianças refugiadas na Europa: nem sãs nem salvas



 A Europa não tem sido um porto seguro para as crianças e jovens refugiados. É preciso fazer alguma coisa.
Uma investigação recente da UNICEF em campos de refugiados no norte de França concluiu que diariamente há crianças alvo de exploração sexual, violência, e trabalhos forçados. Os relatos das 60 crianças entre os 11 e 17 anos são arrepiantes. Em Nem sãs nem salvas, elas traçam um quadro de abusos constantes: prostituição forçada, violações e envolvimento em atividades criminosas.
O diretor executivo da UNICEF no Reino Unido dizia que «estes campos não são lugares para crianças. Sabemos que, pelo menos, 157 crianças em Calais têm direito legal a estar com as suas famílias no Reino Unido».
Daí que seja importante agir. A partir deste outono, milhares de crianças refugiadas vão ter acesso à escola na Grécia. O primeiro-ministro fez o anúncio da contratação de 800 professores esta semana. É uma boa decisão que só peca por tardia. Neste momento, há mais de 57 mil refugiados naquele país. Estima-se que um terço sejam menores.
Recentemente, uma grega ganhou o Prémio Norte-Sul do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa. Lora Pappa, antiga consultora do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, fundou a organização METAdrasi. Trabalha intensamente com refugiados e migrantes, especialmente menores e crianças desacompanhadas. Para isso, criou uma equipa com quase 300 intérpretes e mediadores culturais; tem equipas que transportam crianças desacompanhadas em segurança para instalações apropriadas para menores. Já foram apoiadas mais de 3650 crianças. Na cerimónia de entrega do Prémio, em Lisboa, disse tratar-se «de uma corrida contrarrelógio para criar estruturas de acolhimento para que estas crianças, mais de 1500, não fiquem expostas a redes de passadores e de traficantes».


Ações como estas salvam a vida de crianças. Mas a UNICEF tem exigido ação aos governos. É preciso que eles ajam e que nós, cidadãos, nos empenhemos e pressionemos para essa ação. As crianças desacompanhadas devem ser uma prioridade e os seus processos analisados com maior rapidez. Não é aceitável que fiquem muitos meses, às vezes até anos, à espera de uma resposta ao pedido de asilo.
Nos primeiros meses deste ano, 4760 crianças atravessaram do Norte de África para Itália. Dessas, 94% estavam sozinhas.

Foto: METAdrasi