sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Hijab: Usar ou não usar?

Sentada numa esplanada junto ao mar, assistia à discussão em silêncio. Uns defendiam que, mesmo estando em Timor  e sabendo que os timorenses não se despem em público, tinham todo o direito de ir à praia em fato de banho. Outros argumentavam que, devido ao respeito pela cultura local, tomavam banho nas praias com roupa por cima dos trajes de banho. Eu conseguia compreender os dois lados, mas costumava ir a banhos, nas magníficas praias de areia branca e água quente e transparente de Timor, de fato de banho e calções. Fazia-o sobretudo para não ferir suscetibilidades e para não atrair atenções, preferindo passar despercebida.




















Foi pelo mesmo motivo que questionei há pouco tempo uma mulher muçulmana que me disse que queria procurar trabalho em Portugal se não ponderava deixar de usar lenço. Não estava a por em causa a sua identidade e cultura, mas antes a tentar protegê-la dos olhares inquisidores de pessoas que não estão habituadas a ver mulheres de hijab, numa fase da nossa história em que os muçulmanos são associados a terrorismo, guerra santa, extremismo e fundamentalismo.

Mais uma vez consigo compreender os dois lados: os que preferem manter os seus hábitos mesmo num país que não os compreende e os que preferem ser romanos em Roma, por vontade de se integrarem culturalmente, por respeito ou por acomodação.

Ainda quando estava em Timor, fazia uma reflexão acerca do que é cultural e do que é supracultural e envolve respeito pela dignidade humana, o que se sintetiza nos Direitos Humanos. Conhecer e respeitar uma forma de estar e de ver o mundo enriqueceu-me muito, fez-me sair da minha bolha ideológica e rasgar pontos de comunicação com outras formas de vida. Aprendi, por exemplo, a dar outro valor ao tempo num país onde as pessoas marcavam uma hora para reunir e, sem qualquer falta de consideração pela minha pessoa, eram capazes de se atrasar por terem encontrado um amigo que não viam há muito tempo ou por lhes ter sido solicitada ajuda de última hora. Isso fez-me perceber o quanto na nossa cultura somos escravos do tempo e vivemos agrilhoados a listas de compromissos e ocupações que nos fazem passar a correr e sem tempo pelas oportunidades de encontro connosco e com os outros. Mas havia também aspetos da cultura timorense que eu não podia aceitar, como por exemplo a forma como um órfão era por vezes tratado pelos familiares que o adotavam.

Não consigo conceber que haja culturas melhores ou piores, como alguns colegas da esplanada defendiam. Espero que não se ocidentalize nenhum povo em nome do desenvolvimento. Porque é na subtileza das várias formas de estar que podemos crescer como raça humana. Mas também não me parece bem que se use a cultura para justificar comportamentos que desrespeitam os direitos humanos, como a mutilação genital, o trabalho infantil, a subjugação da mulher e o abandono e mau trato de idosos. Não falo de Timor, da Nigéria, da Índia, do Iraque ou de Portugal. Falo de toda uma humanidade cheia de falhas na garantia da dignidade dos seus cidadãos e de uma bela manta de retalhos culturais, que não pode servir para fazer sombra aos direitos fundamentais do homem.

Se as mulheres muçulmanas devem ou não usar lenço em países europeus? Não sei, acho que é uma escolha delas. Contudo, se o hijab encobre um desrespeito pela autodeterminação da mulher, se lhe veda oportunidades, se limita a sua dignidade e igualdade, então essa questão também me diz respeito e não a poderei tolerar.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

“QUANTOS QUERES” – Desafios, até quantos queres?

Sentei-me para começar a colocar ideias no papel. Tinha já um tema importante para vos falar: o projeto At The Frontiers. Porém, houve mais umas quantas questões que fui tomando nota enquanto pensava em como posso por a minha presença, forças e competências ao serviço das pessoas que vou encontrar na Sicília. Nisto lembrei-me de um origami bastante popular em Portugal, o “Quantos Queres". Neste artigo vão perceber porquê.


Antes de Ragusa

Quando era criança havia jogos, brincadeiras, lengalengas e canções que tinham bastante sucesso na escola e outros espaços de recreio. Lembrei-me do “Quantos Queres”, e de outros jogos que os miúdos ainda hoje gostam, fazem, repetem ou readaptam, e que coexistem a par dos jogos digitais. No fim-de-semana que passou, peguei em folhas de papel colorido e comecei a fazer “Quantos Queres” com o meu sobrinho Francisco (Ki) de 3 anos. Ao mesmo tempo, pensava no desafio de ficar em Ragusa, província da Sicília, durante 23 dias numa missão de voluntariado internacional. Em breve vou ser parte de uma equipa de profissionais humanitários no At The Frontiers - https://www.facebook.com/ATTHEFRONTIERS/?fref=ts - com elementos de diferentes países europeus, que trabalham em cooperação com os profissionais dos centros de acolhimento na assistência a pessoas e famílias requerentes de asilo.

O At The Frontiers with Asylum Seekers surgiu, em 2015, da vontade e capacidade de ação de um grupo de cidadãos de uma associação cristã na Europa, a CLC (Christian Life Community in Europe). Qualquer pessoa pode integrar este projeto, com ou sem religião, desde que tenha bem desenvolvidas as competências pedidas a um profissional humanitário e participe nas atividades em comunidade. Os voluntários que têm integrado este projeto vêm de países como a Alemanha, Grécia, França, Itália, Portugal, Bélgica, Áustria, Espanha, Luxemburgo, Egipto e Holanda. Para os campos de trabalho desta temporada, de junho a outubro, as equipas já estão formadas, mas, para quem estiver interessado em candidatar-se, o projeto continua no inverno.

Entre pensamentos e reflexões, alguns “Quantos Queres” já estavam construídos. A simplicidade dos origamis remeteu-me para algumas das atividades que os voluntários estão a desenvolver neste projeto, como jardinagem e culinária, workshops sobre culturas e geografia, jogos de futebol, sessões de cinema com tertúlia, aulas de italiano ou inglês e tempos livres à conversa, a ouvir e a passear. Uma folha de papel, lápis e as nossas mãos. Desenhei uns olhos em duas das múltiplas faces do “Quantos Queres” e ofereci-o ao Ki. Como ele ficou encantado com o boneco muito simples que acabara de nascer daquele origami.




“Quem vai ao mar, avia-se em terra”

É um ditado bem português e que faz tanto sentido para o pescador como para o profissional humanitário. Não se parte para um projeto de ação humanitária de qualquer maneira. É uma enorme responsabilidade. Há um exercício importante a fazer antes de qualquer desafio, mas sobretudo neste contexto de trabalho com grupos de pessoas que estão altamente vulneráveis: tomarmos consciência das nossas motivações para fazer parte de um projeto humanitário.

É para eu dar o meu contributo no acolhimento, na capacitação e na resolução de problemas daqueles que estão vulneráveis e em situações de enorme fragilidade? É para trabalhar num registo construtivo, pacífico e em cooperação com os vários agentes no terreno? Tenho o perfil pretendido e estou em condições físicas e psicológicas para desempenhar aquele papel?

As respostas que encontramos a estas perguntas e outras, vão guiar-nos na decisão a tomar e são passos que nos predispõem para estarmos com mais foco quando estivermos no terreno. A preparação também passa por pesquisar e procurar informação relevante, contactar e falar com alguns dos elementos que já foram e voltaram, começar a reunir recursos, conteúdos e/ou materiais, e identificar competências transversais ou técnicas que possam potenciar o nosso trabalho em missão.

Olhei para as oito faces no interior do “Quantos Queres” e pintei uma bola, cada uma de uma cor diferente, em cada face. O Ki ficou curioso. Oito faces, oito bolas coloridas.




A diversidade cultural

As pessoas que chegam à Sicília são em grande parte sobreviventes de travessias por vezes inenarráveis pelo sofrimento, as dificuldades e a morte que encerram. Vêm sobretudo de países das costas de África, em guerra, com instabilidade política ou miséria profunda para pedirem asilo na Comunidade Europeia. Chegam de muitos países diferentes. Da Nigéria, Mali, Gâmbia, Senegal, Costa do Marfim, Guiné-Conacri, Eritreia, Somália, Etiópia, entre outros, e também de países como o Bangladesh, Egipto e Síria. Depois dos primeiros cuidados de saúde, alguns de emergência, da identificação e triagem, as pessoas são encaminhadas para os centros de acolhimento na ilha. É aqui que o projeto At The frontiers começa a atuar, em estreita cooperação com os profissionais que trabalham a tempo inteiro nestas casas de acolhimento, prestando assistência às famílias, mulheres e crianças, homens migrantes e refugiados que pedem asilo. O processo de requerimento de asilo é um processo demorado, que pode levar até um ano.

No melting pot de culturas e idiomas tão distintos, o inglês e o francês são os idiomas mais escolhidos para comunicar, mas nem sempre são suficientes. A comunicação não verbal e a criatividade aqui são fundamentais para que haja uma plataforma de entendimento. Pequenos exercícios, dinâmicas e ferramentas, que aparentam ser somente lúdicas, como os “Quantos Queres” e outros origamis, podem facilitar a comunicação e a relação com o outro, para além de serem uma atividade relaxante. Perguntei ao Ki que cor é que ele escolhia. Vermelho. Perguntei-lhe também qual o animal preferido dele. O piriquito Chico. Levantei essa face dobrada do origami e desenhei um pequeno pássaro azul, como é o piriquito Chico que o Ki conhece. “Uau”, disse ele.


Tudo o que levo na mochila para a Sicília

Estou curiosa não só em relação ao projeto, à equipa e às pessoas com quem vou trabalhar, mas também em relação à terra, ao povo e à cultura siciliana. Parto dia 26 de agosto e comigo levo uma mochila às costas por ser mais prático e rápido nos aeroportos e para quando tenho de caminhar.

A minha mochila não pode pesar mais do que 8kg, por isso vou levar o mínimo de coisas que conseguir para 25 dias. É sempre uma aventura fazer a mochila! Quero sempre levar mais do que preciso. O rol será mais ou menos este: roupa de verão e calçado prático para cerca de 6 dias, fácil de lavar e secar; 1 pano/saída de praia multifunções; 1 chapéu; 1 corta-vento/impermeável; 2 sweatshirts; biquíni/fato-de-banho; protetor solar; telemóvel e carregador; disco externo/pc; kit higiene e 1ºs socorros com recipientes até 100 ml; 1 livro; 1 caderno para apontamentos; 2 esferográficas; 1 mapa da Europa e 1 mapa-mundo; 2 dicionários de bolso: inglês e francês; 1 lista de palavras básicas e essenciais em árabe; 1 apito com bússola; óculos de sol; 1 mochila ultra-leve; bolsa com documentos. Não caberá muito mais. No final peso-me com a mochila e sem ela, e a diferença não poderá exceder os 8 kg.


Fazer de propósito

Quantos desafios queres? O que podes fazer mais? O que fazes vai beneficiar alguém? São perguntas que vou fazendo a mim própria e que me ajudam a escolher projetos que realmente importam. Há aquela história muito curta de um homem que pedia incessantemente a Deus para lhe sair o euromilhões. Era a mesma conversa todas as noites, ao deitar. Um dia Deus perdeu a paciência e resolveu intervir, dizendo-lhe: “Ao menos joga criatura!”

Sempre que queremos aprender e evoluir, é preciso sairmos da nossa zona de conforto e ultrapassar limites, limites esses que muitas das vezes são apenas meras preocupações e medos que vamos alimentando. Se por um lado há desafios que a vida nos lança nos braços, por outro há desafios que podemos ser nós a escolher, a agarrar, e a fazer de propósito para que eles aconteçam. Fazer de propósito, escolher, colocar-me em ação, é de longe muito mais interessante.

Outra ideia que ainda apontei, enquanto fazia mais alguns “Quantos Queres”, é a de que não podemos mudar o mundo, mas podemos contribuir para mudar o mundo de alguém ou até de muitos. Contudo, algumas perspetivas que temos, amarram-nos e paralisam-nos. Quais são aquelas que me impedem de agir? A minha forma de pensar permite-me ver o outro enquanto pessoa? Consigo sair da minha zona de conforto e envolver-me na vida da minha comunidade, trabalhar lado a lado com outros que têm ideias diferentes, e mesmo assim encontrarmos respostas para problemas e juntos passarmos à ação? Parar e calibrar as lentes, desconstruir argumentos, faz-nos bem.


Daqui podemos ajudar lá

Quando na semana passada partilhei na minha página do facebook a notícia de que ia fazer parte deste projeto com migrantes e refugiados, pedi aos meus amigos que me contactassem caso soubessem de alguém ou alguma organização/empresa que possa apoiar financeiramente o At The Frontiers. Alguns dos meus amigos mais próximos perguntaram-me se haveria também alguma forma de contribuir individualmente e em quantias mais pequenas. Contactei a equipa de coordenação do projeto e eles responderam que sim, agradeceram muito a iniciativa, e disseram que a ajuda que damos daqui, de onde nos encontramos, é bastante importante, uma vez que permite que se faça muito mais. Ficam aqui os dados e o IBAN para quem puder ajudar:
IBAN: IT23C0503403234000000125472
Banca Popolare di Novara – AG. 36, (codice swif/bic: bappit21n92)
Atenção, quando fizerem a transferência é importante referir para que é o donativo. Reason: Migrants Project.

Os donativos vão reverter já para este projeto no período do inverno, para realizar atividades como jogos, música, artes plásticas e trabalhos manuais, culinária e alimentação, a pintura dos centros de acolhimento, e vai permitir que voluntários com poucas condições económicas possam fazer parte do projeto também. Para além deste passo, falei ontem com duas voluntárias que estiveram lá o ano passado, a Jacinta e a Rita, e quando conversávamos uma delas disse-me que faziam sessões de cinema seguidas de uma partilha de ideias. Ficou a sugestão de eu levar filmes em formato digital, do género do Patch Adams, que eles viram e adoraram, comédias e outros filmes que bem dispõem. Se alguém tiver uma coletânea digital que me possa passar, agradeço. Agradeço também outras ideias que não ocupem espaço.





“diário de ragusa”

Para este mês tenho vários desafios, um deles é começar a escrever um diário sobre este projeto em Ragusa com pequenas histórias. Ainda não sei se terei facilidade de acesso à net e tempo suficiente para me dedicar diariamente à escrita, mas mesmo assim avanço e, no que me for possível, vou dar notícias, contar pequenas histórias, de forma simples e breve. O “diário de ragusa” é o nome do blogue que em breve partilho convosco. Quanto ao “Quantos Queres”, sei que vou pegar em folhas de papel e fazer um ou outro quando estiver por lá. Logo vos conto.


sexta-feira, 29 de julho de 2016

Crianças refugiadas na Europa: nem sãs nem salvas



 A Europa não tem sido um porto seguro para as crianças e jovens refugiados. É preciso fazer alguma coisa.
Uma investigação recente da UNICEF em campos de refugiados no norte de França concluiu que diariamente há crianças alvo de exploração sexual, violência, e trabalhos forçados. Os relatos das 60 crianças entre os 11 e 17 anos são arrepiantes. Em Nem sãs nem salvas, elas traçam um quadro de abusos constantes: prostituição forçada, violações e envolvimento em atividades criminosas.
O diretor executivo da UNICEF no Reino Unido dizia que «estes campos não são lugares para crianças. Sabemos que, pelo menos, 157 crianças em Calais têm direito legal a estar com as suas famílias no Reino Unido».
Daí que seja importante agir. A partir deste outono, milhares de crianças refugiadas vão ter acesso à escola na Grécia. O primeiro-ministro fez o anúncio da contratação de 800 professores esta semana. É uma boa decisão que só peca por tardia. Neste momento, há mais de 57 mil refugiados naquele país. Estima-se que um terço sejam menores.
Recentemente, uma grega ganhou o Prémio Norte-Sul do Centro Norte-Sul do Conselho da Europa. Lora Pappa, antiga consultora do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, fundou a organização METAdrasi. Trabalha intensamente com refugiados e migrantes, especialmente menores e crianças desacompanhadas. Para isso, criou uma equipa com quase 300 intérpretes e mediadores culturais; tem equipas que transportam crianças desacompanhadas em segurança para instalações apropriadas para menores. Já foram apoiadas mais de 3650 crianças. Na cerimónia de entrega do Prémio, em Lisboa, disse tratar-se «de uma corrida contrarrelógio para criar estruturas de acolhimento para que estas crianças, mais de 1500, não fiquem expostas a redes de passadores e de traficantes».


Ações como estas salvam a vida de crianças. Mas a UNICEF tem exigido ação aos governos. É preciso que eles ajam e que nós, cidadãos, nos empenhemos e pressionemos para essa ação. As crianças desacompanhadas devem ser uma prioridade e os seus processos analisados com maior rapidez. Não é aceitável que fiquem muitos meses, às vezes até anos, à espera de uma resposta ao pedido de asilo.
Nos primeiros meses deste ano, 4760 crianças atravessaram do Norte de África para Itália. Dessas, 94% estavam sozinhas.

Foto: METAdrasi

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Amanhã partem para Portugal...

O sol é tórrido e o local de encontro é o quintal, onde está instalada uma mesa comprida. Hoje, tive novos alunos: a família Ahmed chegou há menos de um mês a Portugal e veio visitar pela primeira vez os Ateka, ficando para a aula de Português.
Com a preciosa ajuda de uma intérprete, contaram-me as histórias por detrás da sua fuga e relataram-me a situação de completa vulnerabilidade em que vivem as pessoas na Síria.

Amanhã partem para Portugal
De vermos tantas imagens na televisão, não nos é difícil imaginar o que será atravessar a faixa de mar que divide a Turquia das ilhas gregas. Podemos visualizar um barco preto, repleto de gente, avariado, à deriva, a dar à costa… Foi numa dessas frágeis embarcações que os Ateka arriscaram a vida e empenharam tudo quanto lhes sobrou. As crianças, de 9, 5 e 4 anos choraram e gritaram o tempo, pensando que iam morrer. Os adultos chegaram a pensar que nunca atingiriam solo seguro, não por se afundarem, mas por não conseguirem respirar, de tal maneira estavam apertados contra outros corpos. A bordo iam os avós das crianças, o filho e a nora, pais dos meninos de 9 e de 4 anos, e outra filha e respetivo filho de 5 anos, que chorava ainda mais do que os outros por não saber do pai, mas quem lhe podia dizer onde ele estava se o raptaram na Síria em 2012 e ninguém sabe se está vivo ou morto?
Para além desse familiar, deixaram para trás, na Turquia, dois membros da família, um filho não quis partir por ter a mulher grávida e por isso estar incapaz de se lançar naquela travessia, o outro também preferiu ficar por motivos de saúde.
Tinham vivido juntos três anos na Turquia, onde haviam conseguido casa e trabalho, mas a situação era extremamente precária, pois recebiam tarde e mal e passavam fome. Mas o que os fez tomar a decisão de deixar esse país foi mesmo o futuro que queriam oferecer às três crianças, não podendo permanecer num país onde aumentavam os relatos de raptos, violações e escravatura infantil.
No barquinho de borracha, apertados e enjoados, pensavam na Alemanha, onde o avô tinha irmãos e sobrinhos. Sabiam que se conseguissem lá chegar, teriam uma casa para viver e lojas onde trabalhar. Mas quando deram à costa grega as fronteiras estavam fechadas. Ficaram um mês no campo de refugiados e quando lhes foi dada a informação de que podiam optar pelo repatriamento noutro país europeu não hesitaram e aceitaram. Definitivamente, não queriam voltar para a Turquia. Ao fim de quatro meses, chegou o veredito:
- Amanhã partem para Portugal.
Pouco sabiam deste país, mas só o facto de ser na Europa representou uma segurança. Chegaram em maio e estão ainda a adaptar-se e a aprender a língua. Custa-lhes estar longe de alguns elementos da família e frequentemente recebem notícias dramáticas, como a da morte de um sobrinho de 32 anos. Mas garantem: “não estamos aqui a passar férias, viemos porque é impossível viver no nosso país. Estamos extremamente gratos aos portugueses e esperamos um dia retribuir tudo o que têm feito por nós!”

Já só pedem a pílula
Os Ahmed quiseram também contar-me a sua história.
Fugiram da Síria há cinco meses atrás. Chegaram a um ponto em que já não tinham casa e a situação era insustentável, mas depararam-se com um grande dilema: fugir com 4 dos 5 filhos, sabendo que deixariam para trás a filha mais velha, com 22 anos, e um bebé e um marido estropiado a seu cargo ou permanecer para a ajudar?
Os outros filhos já não podiam continuar a estudar. O mais novo, de 9 anos, deixou de frequentar a escola quando uma bomba explodiu no estabelecimento escolar e na fuga  ele partiu os dentes da frente. Os relatos de violações sucediam-se. “Todos os dias assistíamos ao sofrimento de saber que raparigas eram violadas à frente dos pais e ninguém conseguia fazer nada. As raparigas já só pediam a pílula, já não queriam ajuda nenhuma, só queriam a pílula para evitar que viessem crianças ao mundo naquelas circunstâncias”, conta-me uma das filhas do casal Ahmed.
Por esse motivo, quando pensaram em fugir, não equacionaram o Líbano, por ouvirem relatos de abusos e violações de raparigas.

Encharcados e com os sapatos rotos 
Foi muito difícil tomar a decisão, mas os pais decidiram tentar salvar os outros filhos e planearam a viagem, recorrendo a um passador, numa altura em que não se podia circular em veículos motorizados.
A primeira tentativa foi malsucedida, pois foram apanhados pela polícia e tiveram de voltar para trás. Tentaram novamente e contactaram outro passador que os informou que teriam pela frente uma caminhada de meia hora. Contudo, saíram da Síria à meia-noite e só chegaram à Turquia às seis da manhã, completamente exaustos. Mal preparados, viram os sapatos a rasgar-se e tiveram de caminhar quase descalços. O chefe do grupo proibiu-os de ligaram os telemóveis ou qualquer lanterna, para não serem detetados, e eles não conseguiam ver onde punham os pés. Ora, era inverno e chovia muito e o terreno que atravessavam era matagal, pelo que ficaram rapidamente encharcados. O menino de nove caiu na água a atravessar um ribeiro e foi todo o caminho a tremer de frio.

Salvos numa casa de banho pública
Se estavam felizes por terem atingido a Turquia, sentiam-se sem forças e desconfortáveis nas roupas sujas e ensopadas. Não tinham casa onde ficar e, quando viram casas de banho públicas na rua, decidiram entrar para mudar de roupa. Quando saíram dos sanitários, conheceram uma família síria que vivia ali perto e os acolheu durante dez dias, o tempo suficiente para se restabelecerem e contratarem um rapaz para os ajudar a chegar à Grécia.

Mar agitado
Demoraram quatro horas no mar agitado de fevereiro, mas conseguiram sair da Turquia e alcançar a Grécia com segurança. Encontraram um campo de refugiados, onde se instalaram e, no dia seguinte, foram abordados pelo responsável do campo, que lhes perguntou se queriam sair da Grécia imediatamente ou permanecer. Tudo o que queriam era ir para qualquer local onde tivessem um teto e pudessem descansar. Inscreveram-se no programa de repatriamento e ficaram à espera quatro meses até virem para Portugal. Mentalizaram-se que iam mudar de vida e que deixavam definitivamente a vida na Síria para trás.

À luz das velas
Dos quatro filhos que acompanharam os pais, as raparigas são as mais velhas, com 20 e 18 anos, e os rapazes têm 16 e 9 anos. Elas estão muito motivadas para aprenderem português e se ambientarem, pois garantem que sempre foram ótimas alunas e querem muito ir para a universidade, uma quer estudar Farmácia e a outra Medicina. Para terminarem os estudos secundários no seu país, tiveram de estudar muitas vezes à luz das velas, com as falhas de eletricidade constantes. Estão habituadas a lutar e dizem que não vão desistir dos seus sonhos. Uma delas relata: “a partir dos 12 anos não soube mais o que era a alegria da infância, só via a polícia a matar, não podia sair de casa por causa dos bombardeamentos… Nunca há nenhuma festa ou reunião familiar onde as pessoas estejam felizes, há sempre notícias tristes: morreu alguém, violaram alguém, feriram alguém… Queria que o meu irmão pequeno vivesse a inocência que eu não vivi.

O coração ainda está na Síria
Estão em segurança agora, mas ainda sofrem com a angústia da filha e de tantas pessoas que vivem na Síria. O marido dela só respira. Resultado de uma explosão, já não tem um braço, nem pés e outras partes do corpo estão mutiladas. A filha mais velha não conseguiu deixar o marido sozinho, apesar de os pais terem insistido muito para que fugisse também.
Ela ainda estudava na faculdade e, sem trabalho nem rendimentos, passa fome e mal consegue alimentar a filha bebé. Todos sofrem muito por saberem que ela está naquela situação. A preocupação maior, ainda assim, é com o bebé, que teve uma febre alta e, por não ter acesso a médicos nem medicamentos e por falta de alimentação conveniente, deixou de conseguir mexer os pés.
[Nesta fase do relato, todos os presentes, Ateka e Ahmed, choravam. A intérprete, de tal maneira se emocionou também, que me passava mais informação com os seus gestos solidários do que com as palavras. E eu tentei tocar aquela dor com algum sedativo, mas não me vinha uma única palavra à boca. Fiquei apenas a partilhar a minha consternação com eles, de lenço na mão.]
A irmã vendeu tudo para ter algum dinheiro para conseguir viver, nomeadamente o carro, mas metade do dinheiro teve de se destinar a tratamentos de saúde dele. A situação é extremamente preocupante e as notícias muitas vezes atrasam-se devido a falhas de eletricidade e rede de telemóvel.

Tragédias diárias que não lemos nos jornais
“Há uma aldeia onde desde há dois anos não há comida, as pessoas só tem ossos, parecem mortos. Não precisam de matá-los, já estão a morrer sozinhos.”
“Há locais onde as pessoas comem gatos e ratos e ervas, tudo o que encontram no chão eles comem. Se chove, bebem água da terra porque não há água. Toda a gente tem anemias e muitas outras doenças graves por falta de higiene e alimentação.”
“Morreram muitas crianças num mesmo dia no inverno, por causa da neve, as pessoas não tinham casa e morriam no campo onde se refugiaram.”
Foi disto que fugiram uma e outra família. Sabem que na Europa há preocupação crescente com os atentados terrorista e percebem que o facto de serem muçulmanos dificulta a sua integração, mas querem deixar uma mensagem: “não pensem que estes terrorismos têm alguma coisa a ver com os muçulmanos, quem faz isto não tem religião nenhuma porque os muçulmanos só querem viver em paz e os terroristas não dão paz a ninguém.”
Estão aqui, querem ser boas pessoas para ajudarem da melhor forma quem deles precisar, como estão a ser ajudados.
Agora o meu país é aqui em Portugal e vou esforçar-me imenso para ser uma boa pessoa e ajudar como me ajudaram a mim e vou falar sempre do que estão a fazer por mim aqui”, garante uma das jovens Ahmed.

Todos concordam e garantem que o carinho que estão a receber neste país é um bálsamo para o sofrimento que enfrentam. Esse alívio é algo que vão guardar para toda a vida.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Hoje é dia de construir pontes

Tive o privilégio de acompanhar a construção uma nova ponte durante um ano. Fazia parte do meu percurso diário passar sobre ela, pelo menos, duas vezes por dia. Foi interessante ir vendo os preparativos, movimentações, mudanças de sentido, percursos alternativos e tantas alterações a que diariamente eu e os restantes condutores estávamos sujeitos. Pude constatar diariamente que construir uma ponte dá mesmo muito trabalho, exige muitas pessoas, cada uma com o seu saber e função. É preciso tempo e é preciso também adaptação, paciência e esperança de que as dificuldades que se passam servem um bem maior: ligar as margens, unir, aproximar.



Não sei quantas pontes terá passado este pai com o seu bebé ao colo. Não sei onde está, nem sei a sua história. Sei que com eles há milhares de pessoas com a Vida às Costas à espera de pontes que aproximem e que unam, aquilo que alguns teimam em destruir.

Na segunda feira, dia em que se celebrou o Dia Mandela, a academia UBUNTU e o Instituto Padre António Vieira propuseram que esse fosse «um dia de construir pontes».

De acordo com estudo da OXFAM «apenas 2 milhões e 100 mil refugiados vivem nos EUA, China, Japão, Alemanha, França e Grã-Bretanha: as seis nações que somadas, representam 56,6% do PIB global, dão hospitalidade a 8,9% daqueles que escapam de guerras, doenças e miséria, em busca de uma existência melhor».

Mas a mesma notícia diz que «mais da metade dos refugiados do mundo, ou seja, 12 milhões de pessoas, estão abrigadas na Jordânia, Turquia, Palestina, Paquistão, Líbano e África do Sul, países que somam, juntos, apenas 2% da economia mundial».

Não é de agora que são os que menos têm que mais partilham. Não creio que me caiba a mim mudar as mentalidades e políticas dos países ricos. Mas gosto de acreditar que o pouco partilhado por muitos dá para muito mais do que o muito dado por meia dúzia.

Fazer pontes é possível! Mudar vidas é possível! Acolher e aproximar dá trabalho, mas vale a pena!

Hoje é dia de construir pontes! Amanhã também e depois também! Sejamos nós os empreiteiros desta obra de todos os dias!

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Se o terrorismo nos abana, então aproveitemos o balanço para fazer a paz



24 horas depois do ataque em Nice, França, escrevo o meu 1º artigo neste blogue para dizer que nenhum grupo terrorista é capaz de mudar radicalmente o nosso modo de vida, a não ser que escolhamos ceder às pantanosas suposições, ao medo e ao ódio. Apesar do medo, que é inevitável sentir quando um ataque acontece, as nossas vidas são para continuar e se possível  com mais motivação ainda na concretização dos nossos sonhos e objetivos. Se isto nos abana, então que nos abane para fazer um pouco mais. Melhor é possível.


O poder de um só homem que foi refugiado


Trago-vos a história de Elie Wiesel, que morreu há poucos dias depois de uma vida que urge conhecer e contar. Elie nasceu na Roménia e viu-se obrigado a emigrar como muitos outros com a vida às costas. Elie sobreviveu aos campos de concentração nazis era ainda adolescente. Quando a 2ª Guerra Mundial começou ele tinha 11 anos. Perdeu a Mãe e a irmã mais nova no Holocausto. Esteve preso nos campos de trabalho forçado com o Pai, que morreu em 1945, antes da guerra acabar, depois de ter sido agredido por um soldado nazi. Quando a guerra acabou, Elie foi enviado para um orfanato em França e pôde reencontrar-se com as irmãs mais velhas, Beatrice e Hilda, que como ele também tinham sobrevivido. Tornou-se jornalista, escritor e em 1963 candidatou-se à residência permanente nos EUA e tornou-se um cidadão norte-americano, que passou a ser a sua nacionalidade depois de ter ficado apátrida durante o Holocausto.

Conto esta história hoje, como podia contar tantas outras, porque é atual. Esta história está a acontecer também nos nossos dias. Mas a grande razão para contar esta história é porque Wiesel não só sobreviveu a tudo, como se tornou um motor de ação e inspiração para a paz. É uma história de vida de um só homem que foi refugiado e depois conseguiu transformar-se num agente de mudança a quem foi reconhecido um vasto trabalho transformador de muitas vidas. Elie superou tudo e tornou-se um ativista influente na luta pelos direitos humanos e pela paz. Recebeu em 1986 o Nobel da Paz e fez um discurso maravilhoso, do qual escolho este trecho abaixo. (Peço desculpa por seguir em inglês, mas por uma questão de tempo, segue assim. Mais tarde, posso traduzi-lo. Podem ler o discurso de Wiesel na íntegra neste artigo: http://www.wsj.com/articles/notable-quotable-elie-wiesels-nobel-speech-1467673547)

“And then I explained to him how naive we were, that the world did know and remain silent. And that is why I swore never to be silent whenever and wherever human beings endure suffering and humiliation. We must always take sides. Neutrality helps the oppressor, never the victim. Silence encourages the tormentor, never the tormented. Sometimes we must interfere. When human lives are endangered, when human dignity is in jeopardy, national borders and sensitivities become irrelevant. Wherever men or women are persecuted because of their race, religion, or political views, that place must—at that moment—become the center of the universe.”


Precisamos de ser como o Wiesel


Mesmo que não tenhamos passado pelos campos de concentração, mesmo que as nossas escolhas de projetos de vida e áreas profissionais sejam bem distintas, podemos todos ser como o Wiesel dentro do estilo de cada um. Podemos ser parte de uma ação concertada para defender os que fogem da guerra, do terrorismo, da fome, da perseguição política, religiosa ou racista, e os que não fogem porque não conseguem.

Estamos numa fase em que podemos mais facilmente transformar as dificuldades e as frustrações em oportunidades, porque estamos na era da aldeia global e dispomos de muitos mais recursos. Muitos de nós podemos envolver-nos mais na nossa comunidade local ou até ir para o terreno onde é urgente intervir e erguer quem está a sofrer. Estamos na era global e mais do que nunca temos meios para nos mobilizarmos, para nos ligarmos mesmo à distância, para nos unirmos em pequenos grupos, projetos, entidades, com um só propósito: fazer a paz. E fazer a paz não é ficar passivo, quieto, em silêncio ou neutro. Fazer a paz é tomar ação. Fazer a paz começa dentro de casa, sabendo que o conflito é tão natural como o ar que respiramos. A paz não é a ausência de desacordo e desentendimentos. Muitas vezes é necessário o conflito por ser oportunidade para se colocarem problemas em cima da mesa e resolvê-los. O conflito faz parte da vida e o que importa é fazermo-nos mestres na resolução pacífica de conflitos num chão em que todos possam estar. Precisamos de continuar a construir uma plataforma de comunicação que nos permita ver os outros como pessoas e ter sempre os olhos no prémio: a paz, o bem comum, as crianças, como explica tão bem William Ury, um especialista na negociação e resolução pacífica de conflitos.


De que forma posso contribuir para a paz no mundo?


Não há uma resposta única e acabada para esta pergunta, mas parte de cada um de nós trabalhar uma atitude empática e pacífica que se reflita na ação. Porém, a paz conjuga-se no plural, porque a paz tem tudo a ver com relação e não tem a ver com quem tem razão. Só conseguimos a paz juntos e com os olhos postos naquilo que realmente importa. A paz faz-se e refaz-se no dia a dia, em casa, no trabalho, com os amigos, nas nossas tribos e na nossa comunidade. Não devemos subestimar as nossas capacidades de ação. Um bom grupo de cidadãos conscientes e unidos consegue ter voz e dar resposta concertada a problemas existentes. Sozinhos, parados, tomados pelo medo, silenciosos ou a incitarmos ao ódio e à violência, não somos nada. Unidos, concertados, ao darmos apoio ou ao fazermos parte ativa de grupos e organizações com ação no terreno pela paz e pelo desenvolvimento, somos parte da resposta para acabar com o terrorismo. Se o terrorismo nos abana, então aproveitemos o balanço para fazer a paz.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

ao fundo um cenário diferente...

Ao fundo, um cenário diferente. Vozes que surgem de um altifalante numa língua que não identifico. Pessoas aglomeradas em grupo, umas sentados no chão, outras de pé. Rostos cansados, preocupados, desolados. Crianças no seu ritmo normal de criança, mas em silêncio. Intérpretes a gesticular, a mexer os braços consoante o ritmo das palavras. Polícia armada em posição fixa ou a caminhar lentamente entre as pessoas. autocarros vazios. Três.
No dia anterior, tínhamos deixado o porto de Piraeus de forma tranquila, com mochila às costas, equipados com medicamentos e material de saúde, onde seguimos de metro para o centro de Atenas. Na memória, as famílias a que demos assistência nesse fim de tarde ou pela noite dentro. Não sei bem. As horas andam trocadas. Deixamos de trabalhar não em função de horários, mas de necessidades. 
Aos poucos, fomos sendo informados que estavam a ser convidados a entrar nos autocarros para seguirem para outros campos. "Onde?" Não se sabia bem ao certo. Mulheres e crianças no autocarro do meio. A deportação é real. "Não era só daqui a 2 dias?". "Porquê a segregação?". Silêncio ensurdecedor. 
Viro as costas a todo este cenário. Olho para o mar, o mesmo mar que os trouxe os levará de volta e questiono-me: "que Europa é esta?!" Seco a lágrima que me escorre da cara, discretamente. A fila no "posto de saúde" começa a crescer. Voltemos ao que me trouxe aqui.